A displasia da anca consiste numa conformação anormal da articulação coxo-femoral que ocorre em muitas espécies de mamíferos. É um sério problema de saúde tanto em cães como em humanos, embora seja muito mais frequente em cães.
Em contraste com uma incidência de 1% em humanos, a displasia da anca pode ocorrer em mais de 50% dos cães de raças grandes. Outro aspecto que complica a situação no caso da doença canina, é que esta não é detectável à nascença, embora seja geralmente possível diagnosticá-la no primeiro ano de vida dos cães afectados.
A incidência e severidade da displasia da anca são muito semelhantes entre machos e fêmeas, sendo maior a incidência em raças grandes. É particularmente comum em raças como o Pastor de Berna, Bloodhound, Boxer, Brittany Spaniel, Chesapeake Bay Retriever, Setter Inglês, Springer Spaniel, Golden Retriever, Gordon Setter, Pastor Alemão, Labrador Retriever, Old English Sheepdog, Caniche Standard, Rottweiler, São Bernardo, e Welsh Corgi.
Em raças portuguesas, esta doença já foi diagnosticada em Serra da Estrela, Rafeiro Alentejano, Fila de São Miguel, Cão d’Água, Cão de Gado Transmontano e Serra de Aires.
Cães resultantes de cruzamentos também estão sujeitos à displasia. Embora a frequência seja significativamente reduzida em cães pequenos, as raças anãs também não são poupadas. Esta patologia apresenta uma incidência relativamente baixa em algumas raças grandes, como são os casos do Borzoi, Doberman Pinscher, Dogue Alemão, Galgo, Irish Wolfhound, e Husky Siberiano.
A displasia da anca começa geralmente por manifestar-se através duma diminuição da actividade física, acompanhada de dor articular de severidade variável.
Na maioria dos casos estes sinais revelam-se entre os quatro e os doze meses de idade.
Os cachorros podem ter um andar caracteristicamente bamboleante e desajeitado. Podem colocar os membros posteriores mais à frente, de forma a transferir mais peso para os membros anteriores. Esta postura, quando exagerada, provoca uma grande diferença da massa muscular corporal, sendo mais desenvolvida na região torácica e mais atrofiada na região lombar e nas coxas.
Os cães mais afectados adoptam frequentemente uma técnica de corrida em que movem os dois membros posteriores ao mesmo tempo numa passada comummente descrita como “andar à coelho”.
À medida que a doença progride, o cão pode ter dificuldade em levantar-se após ter estado sentado ou deitado por algum tempo. Pode ser-lhe difícil subir escadas e pode começar a queixar-se ou a reagir agressivamente quando as articulações afectadas são manipuladas.
A doença é progressiva e debilitante, podendo levar à incapacidade total em alguns casos, no entanto, muitos cães manifestam pouco desconforto apesar de possuírem grandes anomalias nas suas ancas. Na maioria dos casos, a dor limita parcialmente o movimento articular, sendo apenas após períodos de exercício intenso que o quadro se agrava e os cães aparentemente normais demonstram sinais mais evidentes e objectivos de doença articular.
Embora se saiba há várias décadas que a displasia coxo-femoral é uma doença hereditária, ainda estão por identificar e compreender o funcionamento de muitos dos genes envolvidos.
Até que a genética desta doença seja completamente compreendida e seja então possível desenvolver testes eficazes e precoces de diagnóstico, os principais métodos de diagnóstico continuarão a ser um exame físico e ortopédico correcto, confirmado por sinais radiográficos.
O exame físico pode incluir diversas técnicas de manipulação para determinar a presença de dor e o raio de acção das articulações, palpação para determinar o grau de lassidão, e testes como o de Ortolani – no qual é possível sentir a cabeça do fémur a sair e a entrar da cavidade articular que se chama acetábulo.
Existem diversas técnicas radiográficas utilizadas no diagnóstico da displasia da anca, que são caracterizadas por diferentes posicionamentos do paciente na mesa de radiografia e por critérios morfológicos, uns objectivos e outros subjectivos, de interpretação dos sinais radiológicos.
Cada técnica tem um método de pontuação, que vai desde o excelente (isento) ao mau (displasia grave). A especificidade e sensibilidade de cada técnica é variável, mas diversos estudos prospectivos e retrospectivos indicam um baixo índice, tanto de falsos negativos como de falsos positivos.
Como a articulação coxo-femoral só atinge a sua maturidade por volta dos oito meses, naturalmente, o número de falsos negativos, mas também de falsos positivos, diminui ao longo da idade, sendo por isso difícil fazer um bom diagnóstico precoce em alguns cães muito jovens.
A melhor técnica a utilizar depende de vários factores, como a idade do cão, a severidade dos sintomas, e a familiaridade do veterinário com cada um deles.
Um aspecto muito importante do diagnóstico radiográfico da displasia da anca, caso os sinais sejam pouco evidentes ou haja intenção de usar o animal como reprodutor, é a necessidade de o realizar sob sedação profunda ou anestesia geral, para que o posicionamento seja o melhor possível, de modo a permitir uma correcta interpretação da radiografia.
A displasia da anca surge durante o desenvolvimento das estruturas osteoarticulares, quando o encaixe da cabeça do fémur no acetábulo não é perfeito, permitindo movimentos mais soltos e alterações mecânicas da articulação.
Isto resulta em lesões contínuas da articulação, inflamação e dor. O volume de líquido sinovial na articulação aumenta, e o ligamento redondo que prende a cabeça do fémur ao acetábulo fica mais volumoso.
A cartilagem articular que recobre estas duas peças articulares é normalmente lisa para permitir uma articulação correcta e sem atrito, mas durante esta doença, ela sofre erosão e enfraquece, ao mesmo tempo que a cápsula articular fica inflamada e espessada. Os músculos da região da anca enfraquecem e atrofiam.
Á medida que a doença progride, os ossos também são afectados, e desenvolvem-se espículas ósseas, denominadas osteófitos, na transição entre o osso e a cartilagem, o que provoca ainda mais agressão mecânica à superfície articular. A articulação fica enfraquecida e dolorosa como um todo.
Globalmente, as características descritas são as que definem uma osteoartrite ou doença articular degenerativa, vulgarmente conhecida por artrose.
Previamente pensava-se que a displasia era provocada por uma patologia que apenas envolvia as estruturas locomotoras da região da anca. Actualmente sabe-se as articulações do ombro, cotovelo, joelho e intervertebrais sofrem frequentemente alterações semelhantes.
Isto sugere que a displasia da anca é simplesmente a manifestação mais conspícua duma patologia articular mais generalizada.
A displasia da anca não é óbvia em cães muito jovens. As articulações dos cachorros parecem ser estrutural e funcionalmente sãs e não demonstram as anormalidades características observadas nas radiografias de cães mais velhos.
Não existem anomalias anatómicas óbvias e consistentes nos ossos e articulações em crescimento de cães que manifestam posteriormente esta doença. Isto deve-se às características complexas que provocam a displasia que se dividem em componente ambiental e genética.
Recentemente, com a criação do Projecto do Genoma Canino, foi possível definir as regiões dos cromossomas onde se encontram os genes que contribuem para a displasia da anca.
No entanto, dada a vastidão de genes que é necessário investigar e descodificar, ainda não foram identificados todos os genes envolvidos e o seu modo de actuação. Existem no mínimo duas e no máximo doze regiões de cromossomas que podem conter genes implicados no aparecimento da displasia da anca.
Como os descendentes dum cruzamento podem herdar genes em combinações múltiplas, tanto favoráveis como desfavoráveis, é fácil de compreender que dois progenitores “normais” podem inesperadamente dar origem a cachorros displásicos.
Adicionalmente, ainda não são conhecidos os genes que determinam o aparecimento da doença só numa ou em ambas as articulações, embora já sejam conhecidas as incidências de cada modalidade em diversas raças, e o lado mais afectado de acordo com a raça.
A identificação de todos os genes que podem conferir protecção ou risco acrescido desta doença permitirão criar marcadores genéticos que conferirão melhores ferramentas para os veterinários poderem recomendar mais medidas úteis numa fase precoce, de forma a reduzir a frequência da doença.
A identificação das mutações que causam a displasia conduzirão a uma compreensão dos mecanismos bioquímicos e, em último grau, permitirão desenvolver terapias mais eficazes para esta patologia ortopédica.
O momento de aparecimento e a taxa de progressão da displasia da anca são influenciados pelo ritmo de crescimento dos cães.
Vários estudos prolongados mostraram que uma taxa de crescimento menor durante os primeiros meses de vida pode diminuir a severidade da displasia ou até preveni-la.
Em cães que foram sujeitos a uma restrição alimentar de 24% nos primeiros dois anos de vida a ocorrência de displasia foi 46% menor que em cães sem qualquer restrição na quantidade de comida. Será então desejável criar regimes alimentares com menor restrição, mas que tenham o mesmo efeito na prevenção da doença.
É aconselhável limitar o peso dos cães, não só na fase de crescimento mas também na fase adulta. Com a ajuda do veterinário, é possível determinar os índices de massa corporal e de massa muscular, e através duma pesagem frequente, regular o peso e o crescimento dos cães para que estes cresçam de forma mais gradual e harmoniosa e se mantenham “na linha”.
O tipo de actividade também pode influenciar a progressão da displasia da anca.
Sabe-se que quando o exercício físico está limitado a passeios de poucos minutos durante a semana, essencialmente inactiva, alternados por picos de exercício ao fim-de-semana, não só de duração mas também de intensidade exagerada, criam-se as condições ideais para que uma displasia incipiente se torne clinicamente activa, especialmente se os cães tiverem uma massa muscular pouco desenvolvida e excesso de peso.
Por outro lado, o exercício moderado, praticado de forma regular e sem grandes oscilações na sua intensidade, prevenindo movimentos especialmente agressivos para as ancas, como saltos e corridas descontroladas, é benéfico para a manutenção da massa muscular e do ângulo de acção das articulações, o que pode permitir a manutenção de uma boa qualidade de vida para a maioria dos cães com displasia.
Após o diagnóstico ser estabelecido, e independentemente da severidade da doença, certas medidas práticas podem providenciar bastante conforto aos animais displásicos.
O exercício moderado, a natação assistida, massagens e fisioterapia passiva, são técnicas que, desde que orientadas pelo veterinário, podem ser postas em prática pelos proprietários de forma simples e eficaz.
Em períodos de agudização da inflamação e da dor, pode ser necessário administrar medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios, e intensificar a fisioterapia, quer no centro veterinário, quer em casa. No entanto, estas medidas não param as alterações destrutivas que vão ocorrendo nas articulações.
A administração, oral ou injectável, de carbohidratos polissulfatados, bem como o suplemento da dieta com nutracêuticos como sulfato de condroitina e de glucosamina e de ácidos gordos ómega 3, têm demonstrado resultados muito positivos no abrandamento da progressão da doença, bem como na suavização e diminuição da frequência dos períodos dolorosos.
Estes produtos naturais podem prevenir a dor em algum grau e ajudam à remodelação da articulação, melhorando o seu contorno e a qualidade do líquido sinovial que a nutre e lubrifica. Estas substâncias não curam a displasia, mas ajudam a melhorar a condição de muitos cães.
Vários procedimentos cirúrgicos têm sido desenvolvidos para tratar a displasia da anca em cães com dor e claudicação.
As técnicas que têm sido usadas em cães com displasia severa incluem procedimentos que modificam a disposição e a conformação dos ossos pélvicos e da cabeça do fémur para permitir um melhor encaixe e consequentemente, um melhor funcionamento da articulação. Em alguns casos, a remoção da cabeça do fémur permite a criação duma pseudo-articulação que ajuda a diminuir a dor e a restaurar a mobilidade dos animais.
Outra opção, substancialmente mais dispendiosa e pouco acessível, é a substituição do acetábulo e da cabeça do fémur por próteses. A técnica cirúrgica utilizada depende das características do paciente, da severidade da doença, da familiaridade do cirurgião veterinário com a técnica em questão, e da possibilidade de acompanhamento por um veterinário fisioterapeuta durante a reabilitação.
Compreensivelmente, o diagnóstico atempado desta doença é fundamental.
Se um cão exibir os sinais e sintomas referidos anteriormente, é importante que o seu proprietário esteja sensibilizado e atento para que os reconheça.
Existem diversas doenças com sintomas aparentemente semelhantes, pelo que é necessário procurar apoio junto do seu veterinário, de forma a poder diagnosticar o problema e iniciar o tratamento mais adequado de forma precoce.
Na maioria dos casos, um diagnóstico de displasia não significa um atestado de invalidez nem uma vida de sofrimento. É quase sempre possível intervir de forma positiva e providenciar uma longevidade e qualidade aceitáveis para o paciente.
Como o diagnóstico precoce nem sempre é possível, caso se deseje utilizar um cão de raça grande como reprodutor, quer para obter uma ninhada caseira para satisfação pessoal, quer para implementar um programa de criação, é sempre importante seguir algumas regras que permitem dar um contributo positivo para a diminuição da incidência desta doença.
Em primeiro lugar, é fundamental esperar que o cão ou a cadela atinjam a idade adulta, após a qual o crescimento osteo-articular estabiliza e é possível fazer os exames ortopédico e radiográfico mais rigorosos, para prevenir que cães com displasia de desenvolvimento tardio transmitam os seus genes à descendência.
Por outro lado, é necessário aplicar os critérios gerais de genética reprodutiva, quando estamos perante uma doença provocada por vários genes:
- Cruzar apenas cães normais entre si;
- Se possível, cruzar apenas cães normais que descendam de pais e avós normais;
- Após três ninhadas, continuar a cruzar apenas os cães que originem ninhadas em que pelo menos 75% da descendência seja normal;
- Se possível, cruzar apenas cães normais que tenham pelo menos 75% dos irmãos também normais;
- Seleccionar para reprodutores cães que tenham uma classificação de displasia superior à média da raça.
Estas linhas mestras têm sido seguidas nas últimas quatro décadas com resultados extremamente positivos.
Naturalmente, isto só é possível de levar à prática de forma generalizada quando os cães reprodutores forem regularmente certificados por uma entidade certificadora de diagnóstico radiográfico de displasia, como é o caso da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC), e por outro, existam bases de dados renovadas anualmente, geridas por organismos independentes, onde constem os cães isentos de displasia e que, a exemplo do que ocorre em diversos países, apoiem os criadores nos seus esforços, quando procuram cães adequados à reprodução.
O futuro passa sem dúvida pela implementação internacional deste sistema, não só para a erradicação da displasia da anca, mas também de outras doenças genéticas já identificadas.
Finalmente, caso se pretenda adquirir um cão de raça grande, é razoável não só saber se ele se encontra saudável e se foi criado em condições adequadas, mas também se os seus progenitores e os frutos de ninhadas anteriores são saudáveis, em particular em relação à doença em causa, a displasia da anca.
Embora, tal como foi referido anteriormente, possam nascer cachorros displásicos a partir de progenitores normais, é importante saber se o criador é responsável e consciencioso, garantindo que só reproduz progenitores saudáveis, e se está a fazer todos os possíveis para providenciar um futuro auspicioso ao seu futuro companheiro mais fiel.
Hugo Pereira, Médico Veterinário
Local: Hospital do Restelo
Telf: 213 032 119
Este artigo foi escrito no fórum deste portal, dia 1-Maio-2007